Qual o sentido de Alma - psyche - em Mateus 10.28?

COMPREENDENDO A NATUREZA E O DESTINO HUMANO (Parte 3)

NATUREZA HUMANA

- Jesus usou “alma” literalmente. Logo, Ele acreditava na imortalidade da alma -

Neste tópico, toda a discussão girará em torno de uma única questão: Com qual sentido Jesus empregou a palavra “alma” em Mateus 10.28? Dar uma resposta a essa pergunta será determinante para este debate.

Como já deve ser de conhecimento da maioria dos leitores da Bíblia, a palavra “alma” (heb. nephesh; gr. psyche) possui vasta carga semântica, razão pela qual o contexto em que aparece é essencial para determinar seu significado. Na maior parte dos contextos em que é usada na Bíblia, essa palavra nada fala sobre antropologia, e aí alma assume diversos sentidos, tais como “ser”, “criatura” (Gn 2.7; Ap 16.3, etc.), “sangue” (Gn 9.4; Lv 17.11, etc.), “vida” (Ex 21.23; Rm 11.3, etc.), “desejo”, “apetite” (Ex 15.9, Dt 23.24, etc.), “pessoa”, “indivíduo” (Ex 1.5; At 2.41, etc.), etc

Porém, há uns poucos contextos em que as Escrituras empregam alma para falar de nossa natureza, referindo-se à porção imaterial e imortal de nosso ser que se mantém consciente após a dissolução do corpo (Gn 35.18; 1Rs 17.21, 22; Mt 10.28, etc.). Nesses contextos, alma é utilizada em seu sentido literal, o que nos impede de substituí-la pelos diferentes sentidos mencionados acima, sob pena de tornarmos o texto não apenas sem sentido, mas também de criarmos absurdos teológicos.

E é isso o que acontece quando Samuele Bacchiocchi, em vez de interpretar “alma” em Mateus 10.28 literalmente, interpreta-a simbolicamente, atribuindo-lhe o sentido de “vida eterna”. Acompanhem as implicações que surgem quando “alma” é substituída por “vida eterna”:

"Não tenham medo dos que matam o corpo, mas não podem matar a vida eterna. Antes, tenham medo daquele que pode destruir tanto a vida eterna como o corpo no inferno." (NVI)

Em primeiro lugar, se “alma-psyche” em Mateus 10.28 significa “vida eterna”, então Jesus teria dito aos Seus discípulos que os perseguidores poderiam matar os corpos deles, mas não a “vida eterna” que haviam adquirido. Até aqui, o sentido de “alma” proposto por Bacchiocchi não causou problema algum ao texto. Entretanto, quando chegamos à segunda parte de Mateus 10.28, aí então teríamos que concluir, absurdamente, que Deus destruirá-apolesai a “vida eterna” na Geenna.[4] Em nossa opinião, somente essa implicação já seria mais que suficiente para sepultar a tentativa de atribuir o significado de “vida eterna” à palavra “alma” nesse versículo do evangelho de Mateus.

Em segundo lugar, somente os salvos possuem a “vida eterna”. Diante disso, será que Jesus teria declarado que o “corpo” e a “vida eterna” dos salvos seriam destruídos na Geenna? Ora, qualquer pessoa discordará desse disparate teológico gerado pelo sentido de “alma” sugerido pelo estudioso adventista. Se o “inferno é o lugar de punição final, que resulta na destruição total do ser integral, alma e corpo”,[5] então a interpretação de Bacchiocchi leva-nos a concluir que todos os salvos serão arremessados na Geenna. Provavelmente, os perdidos é que ingressarão no Paraíso.

Em terceiro lugar, ao analisar o texto paralelo de Lucas 12.4, 5, Bacchiocchi aponta para o fato de Lucas não ter usado a palavra “alma-psyche”. Segundo ele, essa omissão seria evidência de que esse evangelista não apenas não acreditava na imortalidade da alma, mas também queria que seus leitores gentios não corressem o risco de crerem nessa doutrina:

Lucas reproduz a declaração de Cristo omitindo a referência à alma. “Não temais os que matam o corpo e, depois, nada mais podem fazer. Eu, porém, vos mostrarei a quem deveis temer: Temei aquele que depois de matar, tem poder para lançar no inferno” (Lc 12.4, 5). Lucas omite a palavra alma-psychê, referindo-se, em vez disso, à pessoa integral que Deus pode destruir no inferno. É possível que a omissão do termo “alma-psychê” fosse intencional para impedir um mal-entendido na mente de leitores gentios acostumados a pensar na alma como um componente independente e imortal que sobrevive à morte. Para tornar claro que nada sobrevive à destruição divina de uma pessoa, Lucas evita empregar o termo “alma-psychê” que poderia ser confuso para seus leitores gentios.[6]

Todavia, esse arrazoado não possui amparo bíblico, pois mais adiante, em Lucas 16.19-31, ficamos sabendo de dois homens, o rico e Lázaro, que morreram e, em seguida, foram transportados para um lugar espiritual chamado “Hades” (v. 23). Ora, se é verdade que Lucas omitiu a palavra “alma” em Lucas 12.5 para “impedir um mal-entendido na mente de leitores gentios acostumados a pensar na alma como um componente independente e imortal que sobrevive à morte”, então por que ele registrou em seu evangelho a história desses dois homens mortos que estavam conscientes no Hades?

No livro de Atos, o mesmo Lucas, falando sobre o Cristo, disse que Sua “alma­-psyche não foi deixada no hades” (2.27, 31). Aqui, Lucas não somente usou a palavra “alma”, mas também hades. Mais adiante, relatando a ressurreição que Deus, por intermédio do apóstolo Paulo, operou no dorminhoco Êutico, Lucas escreveu: “Paulo, porém, descendo, inclinou-se sobre ele e, abraçando-o, disse: Não vos perturbeis, que a sua alma-psyche nele está” (20.10). Ora, se Bacchiocchi está certo no que alega, então por que Lucas não omitiu as palavras “alma” e hades aqui em Atos, a fim de que seus “leitores gentios” não viessem a acreditar na imortalidade da alma?

Desse modo, essa objeção do pensador adventista verga-se ante o peso das evidências fornecidas pelo próprio Lucas. O fato de psyche-alma não constar em Lucas 12.5, texto paralelo de Mateus 10.28, não indica que Lucas repelia a imortalidade da alma. Ao contrário do que declarou Bacchiocchi, o uso de “alma” e hades, tanto no evangelho de Lucas quanto em Atos, demonstra justamente o oposto: que Lucas cria na sobrevivência consciente da alma ante a morte do corpo!

Conclusão

Na análise em torno do sentido de “alma-psyche”, no contexto de Mateus 10.28, notamos que o ser humano tem uma alma imortal em sua natureza. O fato de Jesus ter mencionado “corpo” e “alma”, lado a lado, reveste-se de grande relevância para a interpretação desse versículo, pois isso comprova que essas duas palavras foram usadas literalmente, para falar sobre antropologia. Se esse “corpo” de carne e ossos que Jesus mencionou refere-se indubitavelmente a um elemento material e mortal da constituição humana, segue-se que essa “alma” que Ele mencionou também é outro elemento, só que imaterial e imortal.[7] Em decorrência desse uso literal de “corpo” e “alma”, exclui-se qualquer tentativa de atribuir algum sentido simbólico a esta última palavra. Ao empregar “alma” literalmente em Mateus 10.28, Jesus demonstrou Sua crença na imortalidade da alma.[8]


(Parte 1) - Jesus acreditava na imortalidade da alma e no castigo eterno dos perdidos? (Mt 10.28)
(Parte 2) - A Alma e o Inferno - Análise de Mateus 10.28
(Parte 3) - Qual o sentido de Alma - psyche - em Mateus 10.28?
(Parte 4) - Qual o significado de Destruir (apolesai) em Mateus 10.28?
(Parte 5) - A Imortalidade da Alma e o Castigo Eterno - Conclusão
(Estudo Adicional)- O que é a Geenna?

Paulo Sérgio de Araújo
www.imortalidadedaalma.com



[4] É indiscutível que a “alma” mencionada na segunda parte de Mateus 10.28 (assim como o “corpo”) trata-se da mesmíssima “alma” citada na primeira parte desse versículo. Portanto, se na primeira parte de Mateus 10.28 essa palavra significa “vida eterna”, como defende Bacchiocchi, então obrigatoriamente terá esse mesmo sentido na segunda parte.

[5] BACCHIOCCHI, Samuele. Imortalidade ou RessurreiçãoUma abordagem bíblica sobre a natureza e o destino eterno. Unaspress, 1ª edição, 2007, pg. 197. Conforme Bacchiocchi, Deus destruirá a pessoa integral na Geenna. Contudo, se “alma” em Mateus 10.28 significa “vida eterna”, então a segunda parte desse texto estaria ensinando que a natureza humana consiste de dois componentes: “corpo” e “vida eterna”, que, juntos, formam a “pessoa integral” que será destruída na Geenna.

[6] ibid., pg. 78.

[7] Segundo a antropologia materialista de ASD e TJ, o homem não tem uma alma, mas ele é uma alma. Ou, declarado em outros termos: o homem não tem um corpo, mas ele é um corpo. Ou seja, para esses dois grupos religiosos (assim como para outros grupos de menor expressão e para muitos pensadores isolados), alma e corpo são uma só coisa, de modo que a morte deste assinala a morte daquela. Contudo, Mateus 10.28 é um dos diversos textos bíblicos que contrariam esse antibíblico ensinamento, pois declara inequivocamente que o homem tem, em sua constituição, uma alma imaterial e imortal, que não perece juntamente com o corpo.

[8] É bastante comum ASD e TJ lançarem mão do argumento de que a Bíblia jamais usa o adjetivo “imortal” para referir-se à alma humana, o que comprovaria ser a doutrina da imortalidade da alma antibíblica. No entanto, essa objeção é por demais falaciosa e frágil, uma vez que a formulação de uma doutrina não requer que os termos que dão nome a essa doutrina apareçam, escritos, nas Escrituras. A palavra “Trindade” (assim como “encarnação”, “auto-existente”, etc.), por exemplo, jamais é mencionada na Bíblia. Contudo, nós, cristãos, acreditamos nessa doutrina. E por quê? Por que os ensinamentos que dão base para essa doutrina encontram-se expressos ao longo das Escrituras. O mesmo ocorre com a doutrina da imortalidade da alma. Embora a palavra “alma” (ou “espírito”) jamais venha acompanhada pelo adjetivo “imortal”, existem diversos textos (como Mt 10.28, por exemplo) que mostram que a alma não morre juntamente com o corpo. Logo, se a alma não morre, só podemos concluir que ela é imortal. Eis aí, pois, o fundamento bíblico-teológico para a doutrina da imortalidade da alma. Por fim, é oportuno fazer aqui uma última observação: em lugar algum da Bíblia é declarado que os anjos são imortais. Logo, será que ASD e TJ acreditam que tais seres espirituais (sejam eles bons ou maus) morrem assim como acontece com seres humanos e animais?


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